Encerrado sob enigmáticas premissas iconográficas, o políptico de São Vicente permanece emerso num impressivo mutismo, existem porém, caminhos de genuína singularidade que não foram ainda percorridos. Será o caso da ligação entre a doutrina da Viva Imago de Nicolau de Cusa e o olhar frontal de parte das personagens nele representadas. A dimensão intelectual de Nicolau de Cusa é hoje indissociável do desenvolvimento científico e artístico do Quattrocento: paralelamente às referências directas a Rogier van der Weyden, sabe-se também que Leon Battista Alberti, Paolo Toscanelli e Andrea de Bussi terão orbitado a sua esfera pessoal. O facto de Fernando Martins ter sido seu secretário entre 1458 e 1464, integra-o precisamente no âmago desta rede de amicizia artístico-científica. O seu regresso ao reino após a morte do cardeal no preciso momento de concepção do políptico constitui uma notável coincidência. Uma hipotética acção interventiva no programa pictórico torna-se assim, mais do que um elemento factual, um apelo irresistível.